Há 117 anos nascia em Itabira, Minas Gerais, Carlos Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro do século XX.
Influenciado pelo movimento modernista, sua obra segue a libertação proposta por Mário de Andrade e Oswald de Andrade; com a utilização do verso livre, sem dependência de um metro fixo.
Em 1928, Drummond publicou o poema No Meio do Caminho, na “Revista de Antropofagia” de São Paulo, uma verdadeira provocação, propondo o rompimento com os padrões estéticos até então cultuados.

Foi tema do enredo "O Reino das Palavras" da Escola de Samba Mangueira em 1987, com o qual a agremiação sagrou-se campeã.

Difícil escolher um poema dele para publicar aqui dentre tantos incríveis! Então publicarei um dos meus preferidos, que fala sobre o amor e seu poder transformador de um jeito leve e divertido.

O Amor Bate na Porta

Cantiga do amor sem eiranem beira,vira o mundo de cabeçapara baixo,suspende a saia das mulheres,tira os óculos dos homens,o amor, seja como for,é o amor.

Meu bem, não chores,hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,

meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor

irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...





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